O fim do mundo é um mito descrito por diversas religiões. É assim nas três grandes religiões abraâmicas: cristianismo, islamismo e judaísmo. O fato é que, mitos à parte, cientificamente prevê-se que um dia nossa amada Terra desaparecerá. Provavelmente será calcinada e engolida pelo Sol, que nos últimos estágios de sua existência inflará, tornando-se uma estrela gigante-vermelha. Isso deve acontecer daqui uns 5 ou 6 bilhões de anos. Mas muito antes disso, contudo, a humanidade poderá ir para o beleléu ou, com sorte e tecnologia, mudar para outras paragens universais.
Ninguém pode prever com certeza o nosso fim. Mas, entre tantas possibilidades, listamos quatro eventos de calibre apocalíptico que, se não têm o poder de nos extinguir totalmente, podem colocar-nos um tanto próximos disso. Podem matar muita gente - o que os torna mais reais e próximos do que possam parecer.
Um desses quatro cavaleiros do apocalipse, o cavaleiro Pandemia já está à espreita na forma de novas e perigosas doenças. Basta olhar o curso da história. A primeira pandemia (epidemia mundial) de que se tem notícia ocorreu entre 1889 e 1892 e foi conhecida como gripe asiática. Acreditava-se que fosse causada (e levada) pelo vento. Em 1957, a gripe asiática causou a morte de 1 milhão de pessoas. Embora não tenha sido o fim do mundo, pareceu, para quem viveu à época.
Mal sabia a humanidade que a gripe espanhola, entre 1918 e 1919, mataria 40 vezes mais que a asiática e cinco vezes mais que a Primeira Guerra Mundial. Foi a mais assustadora pandemia da história, que depois disso já assistiu a outras ameaças como a Aids, a vaca louca, a pneumonia asiática e hoje propaga o receio de que um vírus encontrado em frangos ultrapasse os limites dos criadouros e dizime o planeta. “Desse jeito, muita gente vai morrer é de susto”, diz o professor Hilton Silveira Pinto, coordenador associado do Centro de Pesquisas Meteorólogicas e Climáticas aplicadas à Agricultura da Universidade de Campinas (Unicamp).
Para ele, especialista em agrometeorologia, nem a questão ambiental - que tem efeitos diretos no clima - nem outra qualquer deve ser analisada pontualmente, individualmente. “Temos que pensar de forma sistêmica”, diz Hilton.
Há 20 anos, o físico austríaco Fritjof Capra já falava na necessidade de avaliar as diferentes facetas de uma só crise: a da falta de percepção. Para Capra, a ameaça da extinção da raça humana só sucumbiria diante de uma nova visão da realidade, distante de paradigmas cartesianos e mecanicistas que ignorem a interligação de fenômenos biológicos, psicológicos, sociais e ambientais.
Tudo bem que o cavaleiro Morte, aquele que já veio algumas vezes e com certeza voltará, está associado à concreta possibilidade da colisão de um grande objeto celeste, como um cometa, com a Terra. E nessa história ainda não tem dedo de ser humano.
Mas a ironia é que nós mesmos convidamos alguns dos cavaleiros ao espetáculo da destruição (ou seria autodestruição?).
O aquecimento global, por exemplo, é fruto de nossa convivência predatória com o meio ambiente. Uma guerra nuclear, em outro exemplo, é uma possibilidade parida pela intolerância e pela destemperança dos senhores do mundo.
O cavaleiro Guerra, para nós travestido em conflito nuclear, anda meio em baixa por conta do fim da Guerra Fria. Mas ainda assim sua espada pende por sobre nossa cabeça, amarrada por um fino fio. Vários países tem arsenais nucleares. Alguns desses países, como Índia, Paquistão e Israel, vivem em eterna situação de tensão com vizinhos ou inimigos históricos. Um conflito nuclear entre eles, em escala menor, pode ainda ser a espoleta que detonará algo de dimensões globais.
Uma guerra nuclear global matará gente direta e indiretamente. Os que não morrerem na guerra em si, vão ter que suportar o insuportável. Prevê-se que grandes nuvens de pó e destroços podem cobrir a Terra, causando o que se conhece como “inverno nuclear”. Fala-se, até, que a guerra nuclear global poderia deslocar a Terra de seu prório eixo de rotação. As consequências disso seriam inimagináveis.
Acidente
Além de guerras, há risco sempre presente no uso de energia nuclear para fins pacíficos. Embora o processo de fissão seja rigorosamente controlado, o risco de acidentes nocivos é um fantasma. O vulto da usina de Chernobyl é um exemplo típico. Talvez não sejam as guerras nucleares o cavaleiro apocalíptico Guerra no século 21, mas sim os acidentes nucleares. Na ex-União Soviética de 1986 energia nuclear é sinônimo de morte.
Lá em em tantos outros lugares do mundo, elementos radiativos liberados por reatores nucleares são exatamente os mesmos que caem sobre a Terra depois de explodirem as bombas atômicas. Assim, energia nuclear e armas nucleares mostram-se ligadas de forma inextricável.
Professora titular de Teoria Social e Ambiente da Universidade de Campinas (Unicamp), Leila da Costa Ferreira não é - nem pode ser, como estudiosa do assunto - alarmista. Mas afirma que, embora a biosfera já tenha estado em situações de grandes catástrofes - e delas tenha sobrevivido - os acidentes nucleares, pandemias e graves conseqüências do aquecimento global são ameaças absolutamente reais e cientificamente comprovadas.
O aquecimento global, que associamos ao cavaleiro Fome, já está aí, golpeando-nos com suas tempestades e mudanças climáticas. Catarina, Rita, Wilma, Stan. Alterações e fenômenos climáticos diversos que salpicam suas marcas pelo globo terrestre e deixam, às vezes com direito a assinatura e nome próprio, lugares tão diferentes em situações tão semelhantes: em estado de calamidade pública. Mais: deixam governos praticamente sem ação. Nova Orleans, Tailândia, Portugal, Amazônia e outros exemplos estão aí para confirmar a irritação da natureza. E uma espécie de impotência do ser humano diante dessa mudança de humor.
Difícil, aliás, seria a Terra não se irritar: muitas das grandes cidades do mundo estão cobertas por camadas de fumaça e nevoeiro. Um véu nebuloso de poluição atmosférica envolve o planeta. “Não é possível dizer que os fenômenos climáticos observados nos últimos tempos são somente fruto desse aquecimento. Mas eu e outros estudiosos também queremos ressaltar que não dá para dizer o contrário”, afirma Leila Ferreira.
Para enfrentarmos esses quatro guerreiros em menor desvantagem, socorre-nos em grande parte Ciência & Tecnologia. Certamente, vamos precisar produzir mais conhecimento para sobrevivermos com o mínimo de danos, mortes e traumas. Fora isso, nosso destino dependerá em muito da ação dos poderes públicos em escala global, de nossos políticos e governantes, quase sempre às voltas com as picuinhas do poder.
O desafio sócio-ambiental, na verdade, pede mais. Pede uma resposta criativa da sociedade. Uma resposta que, de preferência, não venha em fragmentos. No mais, já está na hora de começarmos a aprender com nossos próprios erros.
A FRASE
“Assim, nesta visão, contemplei que os cavalos e os seus cavaleiros tinham couraças cor de fogo, de jacinto e de enxofre. A cabeça dos cavalos era como cabeça de leão, e de sua boca saía fogo, fumaça e enxofre.”, SÃO JOÃO APÓSTOLO, Do livro do Apocalipse, na Bíblia
O NÚMERO
10 EXTINÇÕES EM MASSA. É a quantidade estimada de vezes que a vida na Terra quase desapareceu totalmente