A velha máquina de escrever está num canto da sala. Provavelmente, a maioria das crianças que passa por ela nunca viu nada parecido. Nem mesmo quem um dia já fez dela seu principal instrumento de trabalho. As letras datilografadas são projetadas no papel e se transformam em criaturas artificiais que se movimentam e precisam se alimentar uma das outras para se reproduzir. Quem está no comando da máquina assume o papel de um “escritor de vidas”.
Agora, imagine-se de frente para três grandes painéis expostos na parede, interligados por câmeras. No primeiro, verá sua imagem semelhante a uma pintura impressionista. No segundo, o reflexo remete às figuras do tradicional jogo dos anos 80 Pac-Man e, no terceiro, seu corpo é montado como mosaicos.
E por que não tomar uma chuva de letras que compõem as frases de um poema sobre o corpo? A queda das letras pára quando elas atingem qualquer parte da sombra do expectador, de modo que frases inteiras podem ser formadas ou saltitar em torno de alguns de seus membros.
Talvez você prefira ver elementos abstratos se formando em uma parede branca conforme o tom e a altura da sua voz. Já seus filhos irão se encantar com o Copycat, um bicho de estimação metade cachorro e a outra metade gato.
Essa interação entre arte e tecnologia pode ser apreciada na mostra “Emoção Art.ficial 3.0 - Interface Cibernética”, que está exposta no espaço Itaú Cultural, em São Paulo. São 13 obras, clássicas e contemporâneas, criadas por 18 artistas de países como Alemanha, Bélgica, Canadá, Estados Unidos, França e Noruega, e das quais dez interagem diretamente com o público. “Escolhemos as obras e não os artistas. Procuramos trabalhos que fizessem um círculo entre observador e a própria obra”, disse Guilherme Kujawisk, um dos organizadores da mostra.
Segundo Marcos Cuzziol, coordenador-geral do Itaulab, área de novas mídias do Itaú Cultural, um dos destaques da bienal é a própria autonomia das obras. “Elas não são programadas de forma linear, ou seja, não é uma programação dura. Nem mesmo os artistas têm controle total sobre a obra”, afirmou Cuzziol. “Aqueles que dominam o assunto (cibernética) poderão refletir sobre as mensagens intrínsecas dos trabalhos e sobre a evolução dessa nova forma de arte. Mas ninguém precisa conhecer os conceitos da cibernética para se divertir na mostra”, completou o coordenador.
Reações
“É sensacional. Parece que estamos dentro da obra. É muito interessante e só vendo para crer como a arte e a tecnologia funcionam bem juntas”, disse o segurança Márcio Souza, de 22 anos, que visitou a mostra na última semana. “O resultado da junção entre arte e tecnologia é fantástico. Essa exposição ajuda a desenvolver o interesse pela busca do conhecimento”, avaliou a professora de ioga Irma Pedroso Adam, 65, que também foi conhecer a exposição “Emoção Art.ficial 3.0 - Interface Cibernética”.
SERVIÇO
O que: Emoção Art.ficial 3.0 - Interface Cibernética
Onde: Itaú Cultural (Avenida Paulista, 149)
Quando: Até 24 de setembro (de terça a sexta-feira, das 10h às 21h; sábados, domingos e feriados, das 10h às 19h)
Entrada: Gratuita
Visitas monitoradas para grupos com agendamento prévio pelo telefone 0/xx/11/2168-1876; para visitantes em geral, informações na recepção do Itaú Cultural
A FRASE
“A cibernética estuda a comunicação e o controle entre sistemas diferentes, como pessoas e máquinas. Ela define a chamada interatividade, ou seja, pessoas e máquinas se comunicando de alguma maneira. Nesse processo, o papel da interface é fundamental. Mais do que apenas funcionar como canal de comunicação, a interface estabelece onde termina a pessoa e onde começa a máquina, e vice-versa.”, MARCOS CUZZIOL, Coordenador-geral do Itaulab
Rumos Itaú Cultural tem edição 2006
Programa tem como matéria-prima a produção artística e intelectual brasileira
O Itaú Cultural lançou neste mês o edital “Rumos Arte Cibernética 2006”, nova edição do programa permanente da instituição relacionado à arte e tecnologia. As inscrições deverão ser realizadas até o próximo dia18 de novembro.
A seleção dos projetos será feita por uma comissão autônoma de especialistas em duas carteiras: Apoio à Produção de Obra em Arte e Tecnologia e Apoio à Pesquisa Acadêmica (mestrandos e doutorandos). O resultado será comunicado por e-mail aos contemplados até 18 de março de 2007 e também pela internet, no site: www.itaucultural.org.br/rumos2006.
Criado em 1997, o programa “Rumos Itaú Cultural” é a principal linha de atuação da instituição e tem como matéria-prima a produção artística e intelectual brasileira.
Projetos inéditos, em fase de produção ou já existentes, mas que ainda não chegaram ao conhecimento do grande público, recebem do programa o aporte financeiro e de infra-estrutura para se concretizar.
O passo seguinte é a difusão, em ações que amplificam o conteúdo dessas iniciativas em todo o Brasil, com a apresentação dos trabalhos selecionados em exposições, espetáculos, registros fonográficos e videográficos e publicações impressas e eletrônicas.
Mais informações sobre o regulamento do programa “Rumos Arte Cibernética 2006” podem ser obtidas por meio do site www.itaucultural.org.br/rumos2006.
SAIBA MAIS
Origem da cibernética
A palavra cibernética vem do grego "kybernetiké", que significa piloto. O conceito da cibernética surgiu com o matemático Norbert Wiener (1894-1964), na década de 40, quando ele apresentou a nova ciência que visava a compreensão dos fenômenos naturais e artificiais por meio do estudo dos processos de comunicação e controle nos seres vivos, nas máquinas e nos processos sociais. Até a cibernética, os fenômenos naturais eram explicados principalmente a partir da noção de energia. A cibernética representou uma troca de tipo de explicação, adotando a noção de informação como base para a descrição dos fenômenos naturais. As idéias iniciais da cibernética tiveram origem em trabalhos desenvolvidos por Wiener e seu colega Julian Bigelow, durante a Segunda Guerra Mundial. 0