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Publicada em 29/8/2004

Revista Metropole
Xô, timidez!

Inibição diante de pessoas desconhecidas, falta de iniciativa para fazer amizades, medo de falar em público, baixa auto-estima. Se você se enquadra nesta descrição, seu problema é timidez. Aprenda a lidar com ela

Kátia Nunes
katian@cpopular.com.br

Boca seca, coração acelerado, rubor nas faces, suor, tremor, dor de cabeça, mãos frias, gagueira, agitação de dedos, pernas e pés, medo de correr riscos e de chamar atenção. Estes são alguns indícios da timidez, que em linhas gerais, pode ser definida como inibição de comportamento e ansiedade, cujas causas geralmente envolvem a presença de outras pessoas não-familiares. Aos olhos do tímido, o outro é uma ameaça ou um estímulo negativo à sua integridade psicológica.

Segundo a fonoaudióloga Leda Vasconcellos, especialista em voz, mestre e doutoranda em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP), a timidez é um fenômeno comum. De acordo com uma pesquisa feita por ela com 450 universitários de Campinas e de São Paulo, 56% dos entrevistados são tímidos.

Leda enfatiza que a timidez tem um custo alto, podendo gerar conseqüências negativas na vida profissional e pessoal. “Pesquisas indicam que os tímidos demoram mais para escolher suas carreiras e optam por profissões técnicas, que exigem pouca interação”.

Na comparação com os não-tímidos, a balança é sempre desigual. Eles ganham menos, não fazem marketing pessoal, são pouco expressivos e pouco criativos. Além disso, têm menos iniciativa para tentar relacionamentos amorosos, demoram mais tempo para se familiarizar com as pessoas e se casam numa idade mais avançada.

Tem o lado bom

No entanto, de acordo com Leda Vasconcellos, a timidez não tem apenas aspectos negativos. Estudiosos a associam ao instinto de lutar ou fugir como uma reação física à ameaça. “A timidez deve ter tirado muitos de nossos ancestrais de confrontos com feras perigosas, garantindo a perpetuação da espécie. Além disso, é útil porque evita que pessoas se exponham sem uma avaliação prévia do ambiente, que ofendam outras, que falem demais sobre suas vidas pessoais”, observa.

A fonoaudióloga lembra que não existe cura para a timidez porque não é um problema que deve ser eliminado. Para conviver bem com a timidez, o primeiro passo é monitorar o pensamento e o comportamento. Autores de estudos afirmam que 40% dos que se consideravam tímidos no passado, mudaram a auto-avaliação, o que indica que o fenômeno é reversível e mutável.

Em resumo, tempo e experiência de vida, quando necessário somados à intervenção terapêutica ou treinamento específico das habilidades de comunicação, ajudam a lidar melhor com a timidez.

A professora de educação física Fernanda Cristina Zanchetta, 24 anos, é um exemplo de como é possível conviver com a timidez. Docente em academias e de ginástica laboral em empresas, ela sempre teve dificuldade de comandar aulas diante de grupos novos de alunos. Rubor nas faces, tremedeira e dificuldade de fala eram os sintomas mais evidentes.

Temendo que a timidez atrapalhasse seu desempenho profissional, Fernanda fez um curso de comunicação e hoje se sente confiante. “Melhorei minha auto-estima e aprendi a driblar os sentimentos negativos que tinha de mim mesma. Aprendi também a traçar metas a curto, médio e longo prazos e me conscientizei de que as conquistas vêm em etapas. O curso foi muito eficiente”, observa.

Situações que desencadeiam a timidez

Ser o centro das atenções, como em um discurso.
Estar em grupos numerosos.
Situações de inferioridade.
Situações sociais novas.
Ser avaliado.
Estar em pequenos grupos sociais.
Estar diante de alguém do sexo oposto.

Respeite minha lentidão

Aproximação e esquiva são situações antagônicas que habitam o dia-a-dia de uma pessoa tímida. O desejo de se aproximar de alguém não-familiar geralmente é sabotado pela tendência a se afastar. O tímido precisa de contatos sociais, mas duvida da sua habilidade de ter sucesso neles; quer ser aceito e entendido, mas teme se expressar completamente.

Segundo Leda Vasconcellos, pessoas tímidas levam um tempo maior para se entrosar em qualquer ambiente social. Esse tempo extra é o que alguns estudiosos chamam de “lentidão para o aquecimento”, e deve ser respeitado.

A ansiedade em querer ser aceito pelo grupo pode apressar esse tempo e gerar comportamentos inadequados. “O tímido não deve ingerir bebidas alcoólicas com o objetivo de relaxar, pois é uma estratégia contraproducente e autodestrutiva. O melhor caminho é usar essa lentidão para encontrar pessoas com o mesmo ritmo de socialização”, alerta.

Timidez nata?

Leda conta que vários pesquisadores tentaram descobrir a origem da timidez. Alguns acreditam que existe uma tendência inata para ela. Bebês sensíveis a objetos, situações ou pessoas estranhas, que reagem de forma mais exacerbada em relação à média dos bebês, que choram e se debatem mais têm maior tendência a desenvolver a timidez.

Outros pesquisadores afirmam que a tendência inata, por si só, não é suficiente para desenvolvê-la. Situações que se desenrolam no decorrer da vida, sim, são decisivas no estabelecimento da timidez. Educação severa e comparações injustas por parte de pais e professores; pais exigentes, perfeccionistas, tímidos e superprotetores; aparência física; mudanças constantes de endereço (não há tempo de criar vínculos) e experiências negativas anteriores são alguns fatores que levam à timidez.

Autores indicam que 20% dos bebês têm tendência inata para desenvolver a timidez e 42% dos adultos são tímidos. Isso mostra que o ambiente interfere mais no desenvolvimento da timidez do que a tendência inata.

Zona de conforto

A fonoaudióloga Leda Vasconcellos ressalta que todos têm “zonas de conforto”, que são lugares, pessoas ou ações que dão sensação de segurança. A zona de conforto não tem limites e está sempre sendo mudada à medida que novas pessoas e situações são incorporadas. De acordo com a fonoaudióloga, muitos fazem mudanças na zona de conforto com certa facilidade.

Mas o tímido geralmente limita as zonas de conforto por achar que não tem habilidades sociais ou por acreditar que sua aparência e seus dons não são bons o suficiente para levá-lo a conhecer outras pessoas e ambientes. O tímido deve, gradualmente, expandir suas experiências para adicionar pessoas, situações e ambientes à sua zona de conforto, levando em consideração o conflito aproximação-esquiva e lentidão para o aquecimento.

É o que faz Andressa Tiemi Saito, 25 anos, professora de educação física, ao incorporar na sua rotina algumas recomendações obtidas num curso de comunicação interpessoal. “A gente tem que cumprir algumas ‘lições de casa’. Almoçar sozinha na praça de alimentação lotada de um shopping e ir ao cinema sem companhia, por exemplo, eram ações impensáveis para mim. Desde que enfrentei ‘esses desafios’ pela primeira vez, não tenho mais problemas. Parei de imaginar o que as pessoas podiam pensar de mim e assimilei que eu sou a minha melhor companhia”, ressalta.

Como reagir

A fonoaudióloga Leda Vasconcellos é diretora do Instituto da Comunicação Humana (ICOH) de Campinas, onde ministra cursos de oratória, de como falar em público e de comunicação e relacionamento interpessoal. Este último, que começa na próxima quinta-feira, treina as habilidades de comunicação e beneficia tímidos e não-tímidos no dia-a-dia.

Ela adianta que o curso usa simulações e dinâmicas de grupo e dá tarefas a serem cumpridas durante a semana. Alguns tópicos do curso são: auto-estima; técnicas de apresentações e cumprimentos; como iniciar, estimular e terminar conversas; como deixar a conversa interessante; como fazer e receber elogios; como dar e receber feedback; participação em reuniões e em entrevistas de emprego.

O engenheiro civil Paulo Henrique Bellingieri, 26 anos, fez o curso de comunicação e relacionamento interpessoal e também o de oratória. Ele, tímido desde criança, resolveu “encarar” o problema por conta do mestrado em Saneamento e Ambiente que o obriga a fazer apresentações orais de suas pesquisas em congressos e a dar aulas uma vez por semana.

“Queria pegar traquejo e técnica. Adquiri segurança e me apresento com espontaneidade. Me considero tímido, mas nunca me acomodei. Com o mercado exigindo pessoas extrovertidas e dinâmicas, não há como se fechar numa concha”, diz.

Sintomas

Boca seca
Coração acelerado
Rubor
Sudorese
Tremor
Dor de cabeça
Mãos frias
Dificuldade de olhar
Não falar ou falar baixo
Agitação de dedos, pernas e pés
Gagueira
Silêncios durante uma conversa
Roer unhas
Pensamentos negativos
Subestimar-se
Medo
Vergonha
Rejeição
Auto-estima baixa

Domine a timidez

Evite grandes expectativas em relação à sua performance ou em relação aos acontecimentos para evitar ansiedade.

Evite autopunições e diálogo interior negativo.

Faça auto-afirmações positivas. Reforce-se positivamente quando tiver um bom desempenho.

Evite a ingestão de bebidas alcoólicas com o objetivo de relaxar, pois é uma estratégia contraproducente e autodestrutiva.

Use o tempo de aquecimento para encontrar pessoas com o mesmo ritmo para a socialização.

Leve um amigo a uma festa onde não conheça ninguém.

Conheça alguém pelo telefone antes de encontrá-lo pessoalmente.

Fique atento ao contexto da comunicação e não nas suas manifestações físicas da timidez (rubor, tremor, boca seca etc.).

Pense que seu nervosismo pode não estar sendo notado.

Para evitar os momentos de silêncio durante a conversa, faça elogios, perguntas, peça explicações, converse sobre algo que ambos gostem, faça gentilezas.

Se for dar uma palestra, conheça o local com antecedência.

Para relacionamentos amorosos: cuide da aparência, freqüente locais onde possam existir possíveis parceiros e exiba comportamentos tais como, olhar de varredura do ambiente, olhar para alguém interessante e desviar o olhar de forma que a pessoa veja, sorrir, dançar só e andar só.

Melhore suas habilidades sociais por meio de ajuda profissional.

Nossa fonte

Leda Vasconcellos fonoaudióloga, f. 3241-5603 ou www.icoh.com.br

 
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