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Revista Metropole
Diário de classe
A professora de Inglês Maria Lúcia Mercante Naddeo, a Malu, conta
como consegue realizar a ‘mágica’ de fazer 40 adolescentes
se concentrarem numa aula dupla às sete da manhã de segunda-feira
Maristela Tesseroli maristela@rac.com.br
Segunda-feira, sete horas da manhã. Dentro da sala de aula de uma escola particular de Campinas, quase 40 adolescentes do primeiro ano do Ensino Médio estão irrequietos, enviando mensagens pelos celulares ou conversando entre si para contar as “últimas” do final de semana.
Às 7h09, exatamente, a professora de Inglês, Maria Lúcia Mercante Naddeo, ou simplesmente Malu, como os alunos a chamam, sai de sua mesa, onde se encontrava conversando com alguns alunos que a cercavam, e vai para a frente da sala, com a expressão que ela própria chama de “cara de paisagem”.
Sem precisar pronunciar uma única palavra, os alunos se acalmam, param de falar e, a partir daí, trabalharão duro até o final da aula dupla, que terminará apenas 90 minutos depois, sem que haja a necessidade de Malu interromper a aula para exigir silêncio ou solicitar a atenção dos adolescentes.
A “mágica”, com que todo professor sonha, acontece como conseqüência de um dos muitos “combinados” que Malu trata de estabelecer com os estudantes em todo início de ano letivo. Dessa vez, o combinado é que eles têm nove minutos para colocar toda a conversa do final de semana em dia e, a partir daí, toda a atenção deve ser para ela.
Mãe de quatro filhas e professora há mais de 25 anos, a educadora acaba de lançar o livro Educador Alquimista, pela Educação & Cia, em que relata essas e outras experiências bem-sucedidas que ela vivencia em sala de aula e em sua própria casa.
“Não há segredos nem fórmulas prontas para sermos bons educadores ou bons pais”, ressalta. “O que ofereço são dicas simples, quase banais, mas que surtem um efeito enorme dentro de sala de aula quando você pára para prestar atenção aos alunos e se dispõe a fazer algo diferente para que os resultados sejam também diferentes”.
Nos trechos da entrevista a seguir, Malu fala sobre o papel dos pais na educação de seus filhos, sobre as atitudes dos educadores, sobre o comportamento dos alunos e dos professores em sala de aula e, claro, sobre os caminhos para que a alquimia ocorra e para que a informação transforme-se em conhecimento dentro da sala de aula.
Professores felizes
Tento, sempre que posso, passar a idéia de que nós, educadores, podemos – e devemos – ser felizes enquanto trabalhamos. É claro que todos temos inúmeros problemas. Mas não é responsabilidade do aluno carregar o fardo que nós trazemos de nossa vida pessoal. Afinal, eles já chegam em sala de aula com uma carga emocional pesada demais por conta das reclamações que ouvem em casa dos próprios pais. Aí, deparam com professores de mal com a vida, mal-humorados, mal-vestidos... E nós ainda reclamamos que eles não nos respeitam! Se nós não mostramos respeito por eles, por que deveriam nos respeitar? Faço questão de me vestir bem, de usar um pouco de maquiagem e enfatizar que eu me arrumo diariamente por respeito a eles e à minha profissão.
Experiências bem-sucedidas
Qual é minha estratégia em sala de aula? Faço acordos. Certa vez, disse a eles que precisaríamos estudar os verbos irregulares do inglês, um assunto que eu reconhecia ser muito chato mas que, desafortunadamente, precisariam ser estudados. E, então, propus uma competição em grupos. Venceria quem conseguisse organizar o maior número de verbos, seguindo as diretrizes que determinei, no menor tempo possível. Enquanto eles trabalhavam, coloquei um CD com músicas que eles adoram e eles começaram a trabalhar. Um cutucava e ajudava o outro, estimulados pelo desafio. Ao final, disseram-me que foi a melhor aula que tiveram. Certamente foi porque consegui entrar no mundo deles e propus a aula que eles gostariam de ter. Se eu chegasse na sala de aula e dissesse algo como: “Gente, ninguém merece estar aqui, né? Todo mundo deveria estar sob as cobertas!”, eu criaria um clima de desânimo logo de cara. Precisamos nos lembrar de que o professor ainda é uma referência para os alunos.
Vínculos afetivos
Há professores que nem nome têm! Os alunos perguntam: “A Matemática veio hoje?” ou “A Geografia está doente?”, dando mostras de que não há qualquer vínculo entre professor e aluno. E isso acontece porque o professor foi formado apenas para dar aula. Por mais sensibilidade ou afetividade que demonstre, ele não tem formação psicológica para detectar as emoções ou as sensações dos alunos. Como professora de Inglês, fico apenas 50 minutos com os estudantes e é óbvio que, se não fizer algo diferente, ao invés de Malu, vou me transformar rapidamente em “Inglês”. Então, para formar vínculos, tento estabelecer contato e ensino Inglês no tempo que me sobra dos 50 minutos de aula. Você precisa dar-lhes atenção quando chegam com aquela carinha de tristeza ou de angústia. Caso contrário, nada funciona. Eles não vão produzir, não vão cooperar. Por isso, temos que assumir também esse papel de lidar com as emoções. Não dá mais para a gente ficar passando apenas informações sobre Geografia ou Português. Até porque, isso eles conseguem no Google.
Atingindo o coração
Para que a informação se transforme em conhecimento, tudo o que você vai ensinar tem que ser contextualizado. Afinal, só será retida e guardada a informação que for significativa para o aluno. Por isso, sempre digo que o cérebro está intimamente ligado ao coração. Ou seja, primeiro você emociona e, então, o cérebro registra. Assim, qual é a grande sacada na sala de aula considerando alunos tensos, irritados, preocupados com tudo, com um senso de urgência em não perder informações? Aulas no mesmo ritmo. Eles querem movimento, dinamismo porque estão desesperados e têm uma ansiedade contínua. Se fizermos isso, aí, sim, abrimos espaço e criamos ambiente propício para mostrar também que ainda há necessidade de concentração. E somos nós quem precisamos ensiná-los a se concentrar, a coordenar idéias porque ninguém fez isso por eles em casa.
Dentro da sala de aula
Sempre digo aos professores que, ao entrar na sala de aula, somos nós e os alunos. Se o professor entra na sala de aula e deixa os alunos desabafarem um pouquinho e no décimo minuto começa a aula, os alunos entendem que o controle está com a gente, sem que precisemos ficar fazendo discursos nesse sentido. Por isso, negocie, faça acordos, entenda o aluno.
O novo papel do professor
Não podemos mais nos restringir a passar informações. Vamos ter que ser mediadores, facilitadores, parceiros e cúmplices. Que é muito diferente de ser “amiguinho” do aluno. É claro que você vai estabelecer amizades em sala de aula porque a parceria leva à amizade. Isso não significa, entretanto, “facilitar”. Comigo, por exemplo, ninguém entrega trabalho fora do prazo estabelecido. Se há prazos, eles devem cumpri-los porque a vida é assim. Perder nota por conta de um prazo perdido não é castigo. É apenas uma conseqüência por seu ato.
Afeto e autoridade
A linha que separa a afetividade da autoridade é muito tênue. Veja, por exemplo, quando você proíbe seu filho de ir a uma festa porque sabe que o ambiente não é próprio à idade dele. Num primeiro momento, ele sofrerá muito quando você disser que ele não irá à festa. Mas é preciso também dizer-lhe que ele não irá à festa justamente porque você o ama. Nenhum filho morre de chorar no travesseiro. Muito pior que vê-lo chorar é conviver com a idéia de que você expôs seu filho a um risco simplesmente porque não soube dizer “não”.
Sair da mesmice
Ousar é duro. Tem gente que não tem coragem de mudar porque é muito complicado e dá um trabalho danado. O senso comum diz que “ser diferente faz a diferença”. Parece uma idiotice, mas não é. Afinal, se continuarmos fazendo tudo sempre igual, teremos sempre o mesmo resultado. Portanto, obviamente, se quisermos ter um resultado diferente, teremos que fazer diferente. Dá trabalho? Muito! É maçante corrigir provas uma a uma, preparar uma aula divertida, levar adiante uma aula diferente. O mesmo acontece em relação aos pais. É mais fácil não educar. Educar também dá muito trabalho e exige comprometimento para sempre. Mas, apesar de tudo, é um trabalho compensador. Porque, ao final, você percebe que, além de filhos equilibrados, as chances de você conseguir formar bons cidadãos aumentam consideravelmente.
O papel dos pais
Eu vejo o papel do educador fundamentalmente nas mãos dos pais. Quando você decide ter filhos, você se torna um educador por excelência e nunca mais poderá abrir mão dessa tarefa. Não há desculpas cabíveis para delegar a outra pessoa a educação de seus filhos. Isso não é função da escola, tampouco do professor. Se quisermos resultados diferentes daqueles que estamos obtendo com nossos filhos atualmente, precisamos adotar atitudes também diferentes. Parece óbvio, mas os pais não estão se dando conta disso.
Ausência dos pais em casa
Hoje, os pais estão fora o dia inteiro. Os contatos entre a mãe e seus filhos, o pai e seus filhos se dão pelo Messenger, pelo celular... Não estou dizendo para que as mães parem de trabalhar. Mas é preciso arrumar tempo para se ocupar com os filhos. Já vi situações em que as crianças vão passar o dia fora e a mãe simplesmente se esquece de passar o protetor solar ou manda um lanchinho insuficiente porque não tem noção de quanto o filho precisa comer para não sentir fome durante o dia. E isso não pode acontecer. Estou absolutamente certa de que são essas pequenas demonstrações de cuidado que criam cumplicidade, comprometimento entre pais e filhos. É isso que vai garantir que sua filha de 19 anos ligue a você porque se preocupa em informar-lhe onde ela está...

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