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Revista Metropole
Leveza de gueixa
Kyofujimaryu: em Campinas, mulheres praticam a dança oriental que remete ao Japão dos samurais
Eduardo Gregori gregori@rac.com.br
Quem poderia imaginar que em pleno século 21 a beleza e a harmonia de uma milenar dança japonesa pudessem florescer e dar frutos em um ambiente tão diferente e distante do Japão quanto Campinas? A paisagem urbana e o asfalto da rua em frente ao Instituto Nipo Brasileiro, no bairro Guanabara, em nada combinam com a dança kyofujimaryu ensinada lá dentro.
Porém, a arquitetura moderna parece se render à magia oriental que toma conta da atmosfera durante as aulas da professora Kyofujima Kanteru. Quimonos de seda, leques, sombrinhas e músicas tocadas com shamisen (instrumento de cordas) transportam as alunas para o Japão dos samurais e das gueixas.
Kyofujima deixa São Paulo todas as semanas para ensinar em Campinas a arte de contar histórias por meio de movimentos leves e olhares. “A dança é importante porque não deixa a cultura japonesa morrer,” explica a professora que não fala português.
A dança kyofujimaryu é quase uma apresentação teatral, mas sem o recurso da voz. A dançarina japonesa deve contar uma história apenas com os olhos. “Não se pode sorrir ou chorar. O olhar deve dizer tudo para que as pessoas entendam”, conta.
A dança kyofujimaryu fascina a todos. De jovens a senhoras da terceira idade, japoneses, descendentes ou não. Aos 25 anos, Karina Hoshino já pode ser professora. Há 16, a dentista vestiu o quimono. Era uma reverência à avó. “Minha avó dançava e eu era muito ligada a ela. Decidi dançar kyofujimaryu para homenageá-la e me apaixonei”, diz.
Neta de japoneses, Karina diz que a paixão pela kyofujimaryu foi tão grande que, mesmo tendo a possibilidade de dançar outros estilos, preferiu a tradição. “A kyofujimaryu me aproxima da minha cultura”, orgulha-se. Além de transmitir a cultura nipônica para outras gerações, a dança também é uma maneira de disciplinar o indivíduo. “Kyofujimaryu não é apenas dança. Com ela aprende-se a respeitar o outro. É um aprendizado de vida”, explica.
Para contar histórias de amores impossíveis, muitas das dançarinas de kyofujimaryu usam a figura da gueixa. E foi a feminilidade extrema destas divas nipônicas que conquistou Marta Matsumoto. “A mulher japonesa é muito feminina e delicada. Isso me cativou”, explica. Casada com filho de japoneses, a bióloga brasileira conquistou o coração da família do marido ao se render ao kyofujimaryu. “Minha sogra se emocionou quando contei que estava aprendendo a dançar”, lembra.
Poder de sedução
Apesar de não ter ligação com a kyofujimaryu, os movimentos quase flutuantes da dança japonesa e a feminilidade oriental garantem à mulher o poder da sedução. “A mulher pode ser sensual sem ser vulgar”, analisa Marta Matsumoto. A bióloga, que freqüenta as aulas de dança há apenas quatro meses, pretende se inspirar nas gueixas para mostrar ao marido o respeito que sente pela sua cultura. “Na hora certa, vou me vestir como elas. Ainda não estou preparada”, avisa.
Mesmo recatadas e sem falar muito sobre beleza, as japonesas mais tradicionais são tão vaidosas quanto as mulheres ocidentais. E não importa a idade, principalmente quando estão dançando. “A maquiagem da dança também tem a função de esconder a verdadeira idade da pessoa. Que mulher não se sente melhor por aparentar menos idade?”, pergunta Karina Hoshino.
Extrema beleza e inteligência
A história da beleza da mulher japonesa é muito ligada à gueixa. Comuns no século 18, elas resistiram ao tempo e aos costumes da sociedade moderna. Estima-se que atualmente existam duas mil delas no Japão. Para se tornar uma gueixa é preciso ter extrema beleza e inteligência.
No passado, elas começavam o aprendizado ainda crianças. Normalmente eram filhas de pescadores pobres que as vendiam por falta de perspectiva de vida. Hoje, o treinamento é feito na adolescência, e é a jovem que escolhe se seguirá carreira.
Levadas para casas em comunidades comandadas por mulheres, as aspirantes a gueixa aprendem dança, pintura, caligrafia, música, dicção, etiqueta, acrobacias e interpretação teatral. “As gueixas são muito cultas. Elas sabem tudo sobre a arte de servir”, explica Karina.
Além de toda carga cultural que tem de absorver durante o treinamento, a gueixa precisa cuidar da aparência. O visual é composto por quimonos da mais pura seda, pesados tamancos de madeira, adornos e uma maquiagem ao mesmo tempo pesada e delicada.
A função de uma gueixa é alegrar festas, reuniões ou jantares. Seus clientes são pessoas milionárias e intelectuais que podem pagar muito para desfrutar momentos de beleza e encantamento que só elas sabem proporcionar.
Instrumento melodioso
Além de dançar e interpretar com maestria, as gueixas também encantam por meio da música. O shamisen é o instrumento que toda gueixa toca para entreter sua seleta platéia. De corda, tem o formato semelhante ao banjo, porém, de corpo longo e que não necessita de fricção.
As cordas do shamisen não são tocadas com os dedos. Um plectro triangular (bachi) é usado para golpear as cordas. O instrumento possui três cordas de tamanhos diferentes.
Originário da China, o shamisen entrou no Japão via Okinawa e difundiu-se pelo país, no qual se desenvolveu independentemente de seu estilo original. Tornou-se o instrumento representativo do Japão desde o período Edo (1603-1867).
O shamisen é usado também como acompanhamento em vários tipos de canções. Sua melodia é indispensável às peças de teatro kabuki, no e bunraku.
Nova, porém milenar
A kyofujimaryu é conhecida e dançada apenas no Brasil. O pai da professora Kyofujima Kanteru uniu as influências japonesas à sua visão e fundou no País um novo, porém milenar, estilo de dança.
Dança e arte não têm sexo
Apesar de ser um universo dominado pelas mulheres, a professora Kyofujima Kanteru afirma que a kyofujimaryu pode ser praticada por homens. Para ela, a dança, assim como a arte, não tem sexo.
Livro mais antigo do Japão narra com requintes a história da dança no país
De acordo com o 'Kojiki', livro mais antigo da história japonesa, a dança nasceu quando Amaterasu Omikami, Deusa do Sol, escondeu-se em uma caverna, depois de brigar com o irmão, Susano-o. Deixados no frio e no escuro, os outros deuses começaram a dançar em volta da caverna para atrair a atenção de Amaterasu, para que ela saísse do esconderijo. O artifício funcionou: curiosa, ela saiu da caverna e o sol voltou a brilhar. Considerados descendentes diretos de Amaterasu, os imperadores eram homenageados com danças especiais. Fonte: Aliança Cultural Brasil - Japão

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