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Publicada em 16/9/2007

Revista Metropole
Sem marca de biquíni

Estilo de vida: Interior tem áreas onde praticantes de naturismo se reúnem para curtir a natureza livres de roupas e de qualquer preconceito

Eduardo Gregori
gregori@rac.com.br

Viver em harmonia com a natureza. Este é o preceito do naturismo, estilo de vida adotado por homens e mulheres que se consideram livres da opressão exercida pelos padrões de beleza e que lutam pelo fim da exploração da imagem do corpo como objeto sexual. Para estar em contato total com o meio ambiente é preciso se despir, e não somente das roupas, mas de preconceitos e moralismos que consideram a exposição do corpo nu como um atentado ao pudor.

O principal desafio para os naturistas é fazer com que a nudez não seja vista de maneira distorcida. Segundo os praticantes, o desconhecimento da filosofia leva as pessoas a julgar erroneamente os espaços naturistas e quem o pratica. Para eles, as estâncias e praias naturistas são iguais a todas as outras, com a diferença que é possível estar sem roupas e não ser condenado por isso.

Apesar de instigar a curiosidade, o naturismo soa como algo distante, praticado em praias desertas do Nordeste ou do Sul do Brasil. O que praticantes no interior paulista não sabem é que a apenas cem quilômetros de Campinas existe um espaço onde é possível se conectar totalmente com o meio ambiente.

Instalado na área rural da pequena Igaratá, o Mirante do Paraíso é uma estância que há seis anos reúne naturistas da região de Campinas e de todo o País. Chegar lá não é difícil. Rodando pouco mais de uma hora pela Rodovia D. Pedro chega-se ao trevo que dá acesso à cidade. A partir daí, é só seguir as placas com o desenho de uma tartaruga, símbolo do Mirante do Paraíso e que marcam todo o caminho desde a rodovia até a entrada da estância.

Quem recebe os visitantes é o casal de comerciantes Arnaldo e Ivani Soares, donos da propriedade há quase 20 anos. A idéia de transformar o lugar em uma estância naturista foi de Arnaldo, que se apaixonou pela filosofia quando alugou o Mirante para um evento. “Eu nunca tinha tirado a roupa em público, mas gostei quando realizaram o evento aqui. Acabei convencendo minha esposa a transformarmos a nossa propriedade em um espaço naturista”, lembra.

A nova prática de Soares foi encarada com tranqüilidade por Arnaldinho, filho do casal. “Eu era naturista e não sabia. Desde criança andava à vontade em casa. Minha família sempre encarou isso com naturalidade. Não mudei depois que casei e nem quando tivemos nossas filhas”, lembra. Para ele, o naturismo revela quem a pessoa realmente é.

“É libertação. A gente não se preocupa com a aparência do outro. Você aceita a pessoa pelos valores dela e não pelo físico”, define. Apesar do desprendimento do marido, a mulher de Arnaldinho não é adepta. “Ela teve uma criação diferente da minha e não se sente à vontade. Apesar disso, ela não me proíbe e nem as minhas filhas de praticar”, diz.

Para Ivani, aderir ao naturismo não foi fácil. O processo de adaptação demorou quase um ano até que ela se sentisse à vontade para tirar a roupa na frente da família. “Nunca imaginei ficar nua na frente do meu filho ou da minha mãe. Tive que amadurecer a idéia. Só me despi quando ela disse que não vê nenhum problema nisso”, conta.

Mesmo tranqüila, a “estréia” de Ivani foi tímida. “Desci até a piscina onde estavam meu filho e meu marido. Fiquei sentada na cadeira e não me movia. Com o tempo me acostumei e não sinto mais vergonha”, lembra. Pai e filho comemoram e incentivam a atitude de Ivani. “Foi muito positivo ver que minha mãe se sentiu à vontade para tirar a roupa na frente dos filhos e da mãe dela”, diz Arnaldinho.

Apesar de ter vencido obstáculos na família e dentro dos muros da estância, Ivani ainda tem receio de se expor a estranhos e principalmente para uma reportagem. “Eu não vejo nada demais, mas minha mãe não gosta de aparecer e minha irmã não aprova. Aí fica difícil”, completa.

Nudez não é pecado

Quem busca a liberdade proposta pelo naturismo muitas vezes tem de rodar muito pelas estradas que cortam o interior paulista. O engenheiro civil Marco Antonio e a mulher Ivonete chegaram a rodar mil quilômetros entre ida e volta de Ribeirão Preto a Guaratinguetá, cidade onde fica o Rincão Clube, mais antiga estância naturista do Estado. “Tínhamos a curiosidade de conhecer os lugares naturistas e por meio de reportagens tomamos coragem”, lembra o engenheiro.

Antes de assumir o gosto pela prática, o casal consultou um padre para saber se era pecado. “O padre nos disse que o pecado está no coração das pessoas. Se você está nu com outras pessoas em um ambiente de respeito e sem maldade não há problema algum”, conta. De lá para cá, são cinco anos que ambos praticam juntos e não têm vergonha de esconder da família.

“A família toda sabe e não condena. Não praticam e nos respeitam”, diz. Para o casal, o contato com a natureza tem de ser total. Para isso, dispensam luxos e preferem ficar em barracas. “É muito gostoso ouvir o canto dos pássaros logo de manhã, caminhar por um bosque, sentir a natureza ao seu redor”, diz.

Além do contato com o meio ambiente, o casal acredita que estar sem roupas também é uma maneira de se relacionar com o outro de igual para igual. “A roupa traz o status junto com ela. Quando você está nu, ninguém sabe se você é rico ou pobre”. O naturismo também proporcionou ao casal amigos que ambos consideram verdadeiros.

“Temos mais amigos entre os naturistas do que em Ribeirão Preto”, diz. Para eles, os adeptos são pessoas acolhedoras que vivem em um ambiente familiar e de muito respeito. “A sociedade naturista é muito saudável. As pessoas se respeitam e são amigas mesmo”, completa.

Tradição no Interior

A tradição do naturismo no interior paulista vem de Guaratinguetá, no Vale do Paraíba. A cidade abriga o mais antigo espaço naturista do Estado, o Rincão. O clube existe há quase 15 anos e reúne praticantes de todo o País. Grupos também promovem na internet a prática em todo o Estado, incluindo a capital. São eles o Naturistas do Interior Paulista (NIP) (www.mundonu.com/nip/) e o Sampanat - Naturistas da Grande São Paulo (www.sampanat.com.br).

Sem roupas na ilha paradisíaca

Matriarca do naturismo no Brasil, a bailarina Luz Del Fuego só permitia que os visitantes adentrassem a Ilha do Sol, onde vivia, se deixassem suas roupas no píer. A atriz Jayne Mansfield foi barrada por se recusar a ficar nua.

Luz Del Fuego

A capixaba Dora Vivacqua é considerada a matriarca do naturismo no Brasil. Bailarina e feminista fervorosa, começou a carreira no circo com o nome de Luz Divina, mas entrou para a história como Luz Del Fuego. Chocava a sociedade da época ao se apresentar seminua e acompanhada de duas cobras jibóias. Obteve concessão da Marinha brasileira para morar na ilha Tapuama de Dentro, na Baía da Guanabara.

Rebatizou o lugar como Ilha do Sol, onde fundou o primeiro espaço naturista do Brasil, o Clube Naturalista Brasileiro. Só entrava na ilha quem deixava suas roupas ainda no píer. As lendas criadas sobre o lugar atraíram até estrelas de Hollywood como Lana Turner, Ava Gardner e Brigitte Bardot. A atriz Jayne Mansfield foi barrada por se recusar a tirar suas roupas.

Luz Del Fuego tentou entrar na política fundando o Partido Naturalista Brasileiro, no qual sairia candidata a deputada federal, mas a idéia não vingou. A ilha também foi palco de sua morte, há 40 anos. O corpo de Luz e do caseiro foram jogados ao mar, amarrados em pedras. A data de seu nascimento, 21 de fevereiro, é considerada como o Dia do Naturismo no Brasil.

 
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