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Revista Metropole
Marcas tiradas
Efeito: Especialistas apontam os riscos e os benefícios do polêmico peeling de fenol, o procedimento que “retira” pelo menos 10 anos do rosto
Vilma Gasques vilma@rac.com.br
O envelhecimento é encarado de forma diferente pelas pessoas. E muitos buscam fórmulas para retardar ou apagar as marcas da idade, especialmente no rosto. Mas o rejuvenescimento tem risco. Na procura pela aparência jovem, há quem se submeta a todo tipo de procedimento. Na lista de recursos oferecidos está o polêmico peeling de fenol.
O procedimento conta com a simpatia de muitos médicos, mas está longe de ser unanimidade. Isso porque a técnica é realizada com ácido fênico ou carbólico, um produto tóxico que oferece riscos ao paciente. E há muitas outras restrições. Por exemplo, o material deve ser aplicado apenas em hospitais com centros cirúrgicos ou clínicas com a presença de cardiologistas e anestesistas. Além disso, o procedimento é doloroso e a recuperação, lenta.
“Eu aprovo e gosto muito dos resultados. Quando se quer um efeito radical, principalmente nas pessoas com pele muito envelhecida ou cheia de cicatrizes, não há outra técnica tão eficiente”, diz o dermatologista Adilson Costa, coordenador dos Ambulatórios de Acne, Cosmiatria e Dermatologia da Gravidez da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas).
Já Aparecida Machado de Moraes, da Faculdade de Ciência Médicas (FCM) e chefe da Dermatologia do Departamento de Clínica Médica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), diz que sua indicação é muito restrita e a recomendação é feita somente para algumas pequenas áreas e em pessoas que, por algum motivo, não possam realizar outros tipos de procedimentos.
“Pessoalmente, não gosto do resultado estético promovido pelo fenol aplicado na face toda, que fica muito pálida, esbranquiçada, de aspecto artificial e com queda de pelos”, afirma. Ela lembra que há outros recursos para rejuvenescimento da pele e tratamento de lesões provocadas pelo sol que promovem bons resultados e com riscos menores.
Com tantos “poréns”, o fato é que o peeling de fenol está sendo cada vez mais difundido entre tratamentos para rugas e envelhecimento cutâneo. No Brasil, na década de 90, o processo foi modificado pelo médico José Kacowicz, de São Paulo, que patenteou uma fórmula em menor quantidade de fenol e, portanto, menos agressiva.
A substância promove uma esfoliação química profunda de partes da epiderme e derme, numa espécie de queimadura do tecido cutâneo e consequente troca de pele em forma de crosta. Depois de um processo de eritema, em que a região fica avermelhada por um período de até três meses, a área tratada (rosto, mãos e antebraços) tem aumento das fibras elásticas e de colágenos, clareamento e alisamento.
Você pensa que é fácil?
Na avaliação de dermatologista Aparecida Machado de Moraes, o peeling de fenol é uma técnica consagrada, porém, pouco utilizada pelos especialistas pelos riscos que acarreta. Ela ressalta que o fenol, uma substância tóxica, é absorvido após sua aplicação e pode levar a toxicidade cardíaca, renal e hepática. Por isso, tem poucas indicações.
“Além disso, seu efeito na pele é profundo, levando a modificações substanciais que devem ser conhecidas. É indicado apenas para aqueles que tenham alterações acentuadas do envelhecimento cutâneo, manchas e outros sinais de dano solar”, explica. Ela lembra que o fenol promove coagulação das proteínas e, após a esfoliação, devido ao potencial de penetração nas camadas mais profundas da cútis, pode também coagular os vasos superficiais.
Aparecida diz que o procedimento é de risco e que requer, sim, monitoração cardíaca e rigoroso acompanhamento renal e hepático. Por isso, recomenda aplicações apenas em pequenas áreas para se acompanhar as possíveis reações tóxicas. “No começo, com a pele esbranquiçada, ocorre ainda desconforto e dor. Após algumas horas, há o escurecimento nas áreas de aplicação. Nesse período ocorre um endurecimento da pele, dificultando a fala e a alimentação. Somente depois de três ou quatro dias é que se inicia a descamação”, explica.
Se há algum benefício na técnica? Sim, diz a médica. Não há regra rígida sobre os resultados, já que cada pessoa reage de uma forma ao tratamento e tudo depende do grau de envelhecimento. A região tratada perde algumas rugas e lesões relativas à exposição solar, pois há diminuição da pigmentação, tornando a pele mais clara que o restante do corpo. Em pessoas morenas o contraste fica visível.
Quando a penetração do fenol é acentuada, Aparecida diz que podem ocorrer fissuras ou úlceras que deixam cicatrizes, e também queda definitiva dos pelos das sobrancelhas e das margens dos cabelos, próximas às áreas de aplicação do químico.
O médico da PUC-Campinas, Adilson Costa, aprova o procedimento, tanto para homens como mulheres com intensos sinais de envelhecimento ou cicatrizes de acne, já que o fenol estimula a pele a se regenerar.
Apesar dos benefícios, ele também chama a atenção para os riscos, como cicatrizes hipertróficas, quelóides e infecções. Segundo Adilson, o paciente precisa ser bem-assistido com medidas de precaução referentes à antibióticoterapia no período pré, durante e pós-peeling. “O processo é doloroso nas primeiras 12 horas após o procedimento e provoca inchaço grande na pele. E pode haver necessidade de se fazer dieta líquida ou pastosa nos primeiros dias, devido à dificuldade de movimentação do rosto. Por outro lado, os pacientes rejuvenescem 10 anos e os riscos são evitáveis quando acompanhados corretamente por um profissional.”
Costa não indica o peeling de fenol para pessoas com pele mais escura, justamente para evitar o contrates do tom da área tratada com o restante do corpo. “E é bom reiterar que o procedimento deve ser feito apenas em ambientes cirúrgicos e hospitais. Há risco de o fenol ser absorvido, cair na corrente sanguínea e provocar arritmias cardíacas, que são facilmente revertidas se o paciente estiver em um centro cirúrgico.”
Uma borracha nos defeitinhos
Existem basicamente cinco tipos de peelings, classificados como superficiais, médios, médio-superficiais, médio-profundos e os profundos. Cada qual tem suas indicações, que incluem tratamento de acnes, de manchas na pele, correção de cicatrizes faciais superficiais, rejuvenescimento da pele comprometida pelo sol ou pela idade, eliminação de rugas superficiais ao redor da boca, clareamento de pintas nas mãos e nos antebraços, entre outras. O peeling de fenol é considerado profundo.
A cicatrização no peeling superficial leva cinco dias. No médio-superficial, de seis a sete dias. No médio, de oito a nove dias. Já no médio-profundo, de 10 a 12 dias e, o profundo, mais de 12 dias e até meses para que os resultados sejam notados.
Introdução no Brasil
O peeling de fenol com máscara oclusiva foi desenvolvido na década de 60 nos Estados Unidos, mas foi a Argentina um dos países precursores em sua utilização. A fórmula foi utilizada durante anos com restrições a muitos pacientes e necessidade de anestesia geral, internação, medicação pós-peeling e hidratação reforçada.
Após os anos 80, inúmeros cientistas, inclusive brasileiros, focaram seus estudos em novas formulações utilizando o fenol como base, com objetivo de diminuir os efeitos intensos das composições clássicas do peeling com máscara. No Brasil, uma nova versão foi feita pelo médico José Kacowicz, de São Paulo, que desenvolveu uma família de peelings fenólicos de alto desempenho e menor toxicidade. Ele utiliza menos fenol em misturas com outros agentes, como queratolíticos potencializadores e substâncias moduladoras de sua absorção.
Na formulação inicial, o fenol era aplicado sobre o rosto, que depois era envolvido por uma máscara de esparadrapos para fazer a oclusão, uma vez que o produto é volátil e evapora rapidamente. Depois de 48 horas essa máscara era retirada junto com a pele, num processo doloroso. Em seguida, era polvilhado sobre a área pó à base de iodo e bismuto por um período de, pelo menos, 11 dias, com o objetivo de promover a formação de uma crosta grossa. Durante essa fase, o paciente não podia molhar a face, mastigar ou escovar os dentes. Depois desse período, uma terceira máscara de vaselina era aplicada para retirar a crosta formada.
Nas alternativas mais modernas – sem a máscara de esparadrapos –, o paciente sente menos dor. O desconforto é amenizado também com a utilização de analgésicos comuns durante a aplicação.
O que é o fenol?
É um ácido fênico ou carbólico, substância presente na natureza, derivado oxigenado do benzeno, extraído de óleos fornecidos pelo alcatrão de hulha, um carvão mineral. Foi muito usado em medicina como antibiótico e agente desinfetante durante o século 19 (solução de fenol a 10%) no tratamento de feridas durante as guerras. Serve também para preparar diversos corantes, matérias plásticas e alguns medicamentos.
Para quem é indicado
De uma maneira geral, o peeling de fenol é indicado apenas para pacientes mais velhos, que tenham rugas expressivas e que não apresentem nenhum problema cardíaco ou renal.
_É indicado para uso na face inteira ou apenas de forma localizada, como na região ao redor da boca. _Pode ser indicado também para áreas do rosto, braços e dorso das mãos com lesões provocadas pela exposição contínua e prolongada ao sol. _Somente é indicado para quem tem pele clara.
Fonte: médicos consultados na matéria.

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