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Publicada em 26/7/2010

Paulo Coelho
A importância do foco

Paulo Coelho
paulo@paulocoelho.com.br

Atirando com o arco

O iogue Raman era um verdadeiro mestre na arte do arco e flecha. Certa manhã, ele convidou seu discípulo mais querido para assistir a uma demonstração do seu talento. O discípulo já vira aquilo mais de cem vezes, mas mesmo assim, obedeceu ao mestre.

Foram para o bosque ao lado do mosteiro. Ao chegarem diante de um belo carvalho, Raman pegou uma das flores que trazia no colar, e colocou-a num dos ramos da árvore.

Em seguida, abriu o alforje e retirou três objetos: um magnífico arco de madeira preciosa, uma flecha e um lenço branco, todo bordado em lilás.

O iogue então se posicionou a uma distância de cem passos da árvore, de frente para o alvo, e pediu ao discípulo que o vendasse com o lenço.

O discípulo fez o que o mestre ordenara.

“Quantas vezes você já me viu praticar o nobre e antigo esporte do arco e flecha?”, perguntou.

“Todos os dias”, respondeu o discípulo. “E sempre o vi acertar na rosa, a uma distância de trezentos passos”.

Com os olhos cobertos pelo lenço, o iogue Raman firmou os pés na terra, distendeu o arco com toda a sua energia — apontando na direção da rosa colocada num dos ramos do carvalho — e disparou.

A flecha cortou o ar, provocando um silvo agudo, mas sem atingir a árvore, errando o alvo por uma distância constrangedora.

“Acertei?”, disse Raman, retirando o lenço que cobria os olhos.

“O senhor errou, e por uma grande margem”, respondeu o discípulo. “Achei que ia me mostrar o poder do pensamento, e sua capacidade de fazer mágicas.”

“Eu lhe dei a lição mais importante sobre o poder do pensamento”, respondeu Raman. “Quando desejar uma coisa concentre-se apenas nela: ninguém jamais será capaz de atingir um alvo que não consegue ver.”

A busca do sábio

O abade Abraão soube que perto do mosteiro de Sceta havia um sábio. Foi procurá-lo e perguntou:

— Se hoje você encontrasse uma bela mulher em sua cama, conseguiria pensar que não era uma mulher?

— Não, respondeu o eremita, mas conseguiria me controlar.

O abade continuou:

— E se descobrisse moedas de ouro no deserto, conseguiria ver este ouro como se fossem pedras?

— Não. Mas conseguiria me controlar para deixá-lo onde estava.

Insistiu Abraão:

— E se você fosse procurado por dois irmãos, um que o odeia, e outro que o ama, conseguiria achar que os dois são iguais?

Disse o ermitão:

— Mesmo sofrendo, eu trataria o que me ama da mesma maneira que o que me odeia.

Naquela noite, ao voltar para o mosteiro de Sceta, Abraão comentou com seus noviços:

— Vou lhes explicar o que é um sábio. É aquele que, ao invés de matar suas paixões, consegue controlá-las.

Paulo Coelho é escritor
paulo@paulocoelho.com.br
www.paulocoelho.com.br

 

 


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